Memória de elefante
Eu tenho memória de elefante, sempre soube. Inclusive, lembro que um dia antes de descobrir que estava grávida de Heitor, sonhei que estava com uma miniatura viva de um elefante branco na palma de minha mão, brincando e ziguezagueando entre as linhas profundas e tortuosas de meu destino. E, deslumbrada de tanta beleza, acariciava com a ponta do dedo indicador o dorso daquele animal espetacular. Contrariando a morte, senti nidados no meu ser o amor e a leve brisa do renascimento. É como se a paz se instalasse, delicada e vibrante, inviscerada em minha alma - fulgurante como um clarão de vida. Mas, num certo momento, meu sonho de encantamento foi abruptamente cortado e o pequeno animal parecia temer algo. Foi quando em concha o protegi com as mãos e o pus junto ao peito. Corri o máximo que pude e quando avistei um lugar seguro, abri novamente as mãos e ele havia sumido. Em cada mínimo lugar da palma de minha mão havia uma lembrança-pérola de algo que ainda estaria por vir, e não senti tristeza, não havia vazio. Na verdade, eu me senti povoada de luz e me comovi com a possibilidade de que, talvez, meu incrível mamífero tenha encontrado o melhor abrigo que um dia eu nunca poderia sequer sonhar. Talvez tenha ultrapassado as barreiras de alma intransponíveis da pele e estivesse agora imperando e habitando sagrado em um ninho, dentro de mim.

Comentários
Postar um comentário