Saudades de um mestre
Hoje faz um ano que ele partiu. Assim sendo, partido e trincado também ficou meu coração. Quando sua imagem aporta na lembrança, peço que permaneça sempre vivo o menino que alimentava a verve do genial artista. Sempre que me deparo com a arte em seu tom maior, ele vem como figura e lembro-me de suas fibras musicais ecoando em meus ouvidos, transformadas em conselhos de pai. Ele, em meio a tantos livros, me indicava sempre aquele que achava que para mim era imprescindível. Aprendi tanto com aquelas palavrinhas inteligentes. E quando ele me surpreendia na livraria procurando determinados livros de ficção americana, que ele insistia em dizer que eram pobres em vocabulário, brincava de me chatear, falando que eu sempre me perdia na prateleira das bobagens. Depois contradizia-se, falando que não existia nada melhor que falar besteira. Era sempre tão encantador! Eu, sob seu olhar atento e cúmplice, diante de milhões de dúvidas; ele, um bom ouvinte, uma enciclopédia ambulante, me respondia com a paciência de um professor que dedicara 50 anos de sua vida ao ensino. Falávamos tanto de liberdade e planejamos, risonhos, tantas viagens pra conhecer o mundo, inclusive, prevendo detalhes de como nos portaríamos, ou como aprontaríamos em vários lugares. E aos 80 anos, acho que se esqueceu de envelhecer; sempre teve asas de menino. Agora, com sua partida, nossos planos foram interrompidos; no entanto, cada palavra sua foi gravada com fogo em minha alma. Quando estou afogada em problemas, lembro-me de seus sábios conselhos e de como me ensinou como algumas palavras já continham a solução em seu próprio significado. Um dia me disse que crise significava, em grego, etapa ou fase de transição; tudo passa. E agora, tento fazer disso lei. Sonhei que a gente estava com nossos amigos, na orla da praia marulhante de João Pessoa, cantando “Cantiga Praieira” a quatro vozes, com os cabelos empinados como pipas ao vento. Acordei cheia de contenteza. Nossa despedida não foi muda, em sonho, ela voou em voz. Acho que nossos fios melodiosos de afeto eterno, de todas as cores, se misturaram naquela borrada paisagem marítima.
Amo-te, sempre.
* 27.08.1932
+ 29.06.2013
Sobre Reginaldo:
O maestro nasceu em Guarabira (PB) e faleceu, em Cabedelo (PB). Era professor aposentado da Universidade Federal do Piauí, em Teresina, e foi fundador do primeiro estúdio de música eletroacústica do Brasil, no Instituto Villa-Lobos, hoje integrado à Universidade do Rio de Janeiro.
Em Paris, na década de 50, foi aluno de composição de Olivier Messiaen e um dos primeiros discípulos de Pierre Schaeffer, o criador da música concreta. Reginaldo tem o mérito de ser o primeiro compositor brasileiro a trabalhar com música eletroacústica. Suas primeiras obras datam de sua estada em Paris com bolsa obtida por influência do músico Heitor Villa-Lobos. Lá pôde trabalhar com Pierre Schaeffer e estudar as técnicas e procedimentos da música concreta.
De volta ao Brasil, montou seu Estúdio de Experiências Musicais, onde criou suas obras concretas. Mais tarde tornou-se diretor do Instituto Villa-Lobos, que na época se transformou num importante centro para a prática da música experimental no Brasil.

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