Conexão

Um dia qualquer. Um dia de céu. Procuro as palavras e encontro um vácuo entre o tempo e espaço. Um dia meio noite, dentro de uma zona incerta. Suspensa. As últimas notícias dos jornais contam que fomos, mais uma vez, atacados terrivelmente de surpresa, por um inimigo invisível e virulento, numa estranheza interminável. O país agora vive um improviso imperfeito, entranhado na ansiedade urbana, preso em suas casas, escondido do apocalipse e cada vez mais consciente da nossa incerteza humana. Estou quase dormindo e deitada, vejo sonhos sonolentos me acolchoando por todos os lados. Há um céu inalcançável a humanos e apinhado de estrelas, que formam uma teia para um momento bem particular. Em respeito, neste recinto só podemos entrar descalços. Observo. Janelas abertas, estou deitada, com olhos varrendo a imensidão, finalmente posso, com as pernas no alto, manter os pés tocando em cada ponto luminoso que se interliga no céu. Corpo a corpo celeste: estou conectada. Passo a entender que é necessário encontrar um lugar secreto no mundo em total conexão com o espaço. É um esconderijo em que viajo e retorno serena, mas não sem ter o corpo coberto de luz forte em brasa. Sou uma andante das constelações, galáxias e dos invisíveis encantos celestiais. Dou grandes passos, com rastros de esperança. Nem sei o que seria de mim se não houvesse um lugar num céu, criado para me guardar em silêncios nebulosos e a vastidão do meu térreo mundo - aquele que em meus pés devem estar sempre fincados como raízes. No meu olhar, sempre uma nova estrela. É nas alturas que se torna mais fácil imaginar onde se segurar. Estou conectada aos fios de afetos de todas as cores. Encontro-me sempre por mudanças periódicas em ciclos solares e lunares que me visitam e ficam. Deixam seu sabor. São luzes que ligam a terra e o voar, ou quase nunca soltam, parte esta de uma conexão que ganha os céus, a cada vento. São pequenos girantes novelos de delicadezas, tecidos em fios de estrelas. Apenas esses sentimentos, em overdoses de explosões estelares, fazem vicejar - todos os dias - o gosto de reinventar a vida. Peço que o mundo que imagino lá de cima e me acolhe, jamais se ausente, apesar do medo. Agora, o relógio marca horas que já não me importam. Luzes de todas as cores pontilham meu dormir e anunciam mais sonhos. Estou só e plena.


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