Poente


Como é linda esta via... Procissão iluminada de versos e palavras de quem caminha e de quem voa. O bailar dramático de nuvens segue orquestrada pela melodia do sol poente que desmaia. Há na vastidão, uma fusão de cores e sentimentos. Abra os braços. Vê: há pássaros que cruzam o horizonte. Outros deles surgirão e se entrecortarão entre sóis e perdões. Há uma cena paralisada, que se multiplica, virulenta, em um canto qualquer que não se pode ver. Entende, há lágrimas que se transformam em flores, por isso vemos jardins. Muitos jardins. Mais adiante, uma árvore adormece. Não, não há só uma árvore, mas várias delas. Não confunde com sombras. É a luz branda de um entardecer quase sumindo. É mais uma floresta sonífera que respira espirais silenciosos. Só amanhã falarão. A mudez de hoje é para entender suas raízes e por que não caminham. Ou melhor, por que não voam. Mas, isso se dissolverá mais tarde, quando em sonhos, serão sopradas em suas raízes aéreas para o infinito tão desejado. Agora, que céu nos guia? A cidade tem ruas de palavras enfileiradas e de luz que se perdem. Despedaça suas construções de blocos e concretos. Passarelas e passarinhos. Luminosas esferas em verde musgo vão esmaecendo até que o negro despenque, rompa e inunde, sangrando a veloz hora cravejada de estrelas e, assim, nasça rasgando, de mansinho, um amanhã já mutilado e envelhecido pelo próprio tempo.

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