Dente-de-leão
Sim, há enigmas. Eles não têm cara. Mas, veja bem. Vivemos imersos em dúvidas o tempo inteiro e nem por isso, devemos fazer de nossas vidas um canto triste. Sei que não é tão fácil assim. Há dias ao contrário. Dias confusos. Dias oblíquos que nos apontam leme abaixo. Mas, há dádivas que talvez não possamos enxergar. Estão bailando transparentes por entre nossos corpos e almas, sob banjos dedilhados pelo destino. Acariciando-nos como um vento tímido e morno do final da tarde, que nos convida sempre a apreciar as nuvens andantes, de um céu prestes a virar o negrume sagrado da morada dos pássaros. Se não fosse a escuridão, jamais viríamos estrelas. Inclusive, elas ficam sempre mais brilhantes. Há tempos, almejava um retiro de paz a aldeias distantes da civilização, fruto da imaginação dos meus quase sonhos diurnos. Desancorar vez por outra desse porto povoado com dias carimbados, espremidos em caixas e envelopes cotidianos. Tudo sutilmente ornamentado com pequenas esperanças no coração. Tricotamos poesia doída nos nossos dias duvidosos. Mas seria possível mudarmos o olhar? Será que podemos permitir que o simples assobio do vento da janela entreaberta, nos faça crer, de olhos fechados, que na verdade, o destino sopra segredos enrolados em novelos de ar melodiosos e que nos chama para viver momentos intensos de amor ao dia presente? Alguns diriam que a sabedoria de um sonho é invejável; outros diriam, estúpida. Mas, os bons ventos reforçam e indicam: vamos viver asas! Ser pássaro. Olhar para o nosso próprio coração, permeado de veias iluminadas, para explodirmos sementes livres na atmosfera infinita. Sopro, dente-de-leão.

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